Para o doce Dragão que é Clarisse Abreu.É tempo de resolver coisas deixadas pela metade.
Não. Começou mais um dia com uma negação. Não é que fosse fácil ou difícil... simplesmente ERA e muitas vezes esse ERA ERA insuportável. Para tanto caminhava longas fileiras de cigarros logo pela manhã, manhã essa, eu digo, do horário que se acorda; poderiam ser cinco da manhã ou seis da noite. Mas o fato é que era, digo, ERA uma longa carreira de cigarros e a certeza de que estaria acordada durante a noite, todas as noites.
E andava nas ruas sem destino algum como se fosse uma novidade que ninguém tivera feito antes. Parando pouco a pouco nos cafés para ver as menininhas de colegial passar, perfeitinhas em seus sapatinhos de boneca, loiras muito loiras ou de cabelo negro muito negro, deliciosas e brancas e puras como pavê de abacaxi. Vitrines memoráveis mas nem tão intocáveis assim... lembrou do dia em Vila Isabel quando levou um violento tapa no rosto de uma loira oxigenada, os olhos pleniluzentes e azuis clamando por ajuda. A mão, o gesto e o impacto, o xingamento de costume, mas meu sapato é 36... E ria sem remorso.
Caminhava sem remorso como a malabarista de Zaratustra sobre a trilha infinita de cigarros, a caixinha já rasgando, os cigarros já amassados por tantas vezes que muito cansada usava da própria bolsa preta como travesseiro; um banco de praça totalmente isolado em Juiz de Fora, e a sede e a fúria durante o pré-sono com olhos violentamente entrecerrados para que nunca mais pensasse em
[...]
E não pensava. Nem deduzia. Com dificuldade pulava de Virginia Woolf para Platão.
Círculo. Algo circundava ela além das histórias que sempre se repetiam esvaziando a vida como um rodamoinho de pia ou privada (horário no hemisfério sul e anti horário no hemisfério norte? Eu não sei, estava de ressaca pra lembrar).
Algo circundava ela. Era um cordão de força e, ao mesmo tempo, uma área de risco. Imaginava os corredores da UERJ cheios, repletos de pessoas correndo em sua direção como se soubessem que ela era o problema maior e corressem, fugindo de alguma coisa, um tiro ou um espetáculo, inevitavelmente correndo em sua direção prontos para esmagá-la. Para nesse momento sentir, vindo do nada, o perfume indefinido de mistura de perfumes que era daquela outra. A outra, mais do que qualquer outra. E através desse cheiro de tudo, enviado telepaticamente dos olhos miúdos e da pele macia e fina como seria o leite se fosse possível alisar o leite e sentir sua tessitura. Ou seria textura, não sei. E haveria:
Haveria um novo livro profético a ser escrito que fala sobre a redenção pelo cheiro de uma mulher, vindo do nada, cheiro de inteira mulher, vinda do indefinido. A multidão em fuga vindo em sua direção não a atropelaria, ela saberia se esconder, deslizando suavemente para um abrigo improvisado; um caixa 24 horas vermelho. Ela parada, fumando. Ela, toda um homem na realidade. E mais:
Passada a multidão ela se voltaria para o vazio de sapatos e carteiras quebradas no chão e voltaria seus olhos para o lugar de onde tudo fugira. E ali se depararia com o QUE. (...) Mas o tempo mudou. As pessoas e coisas evoluíram. A ordem mudou. O tempo mudou. O impossível foi realizado na cidade vizinha, apesar de não ter sido noticiado nos jornais que não lemos. O tempo mudou. Olha agora para o QUÊ e diz: QUÊ PORRA NENHUMA! FIZ ESFORÇO PARA SER, ENTÃO QUE SEJA. DE UMA VEZ POR TODAS:
Sim ou não?
E o desconhecido responderia. Quando isso? Eu não sei. Talvez na hora dos clichês. Sim e não talvez sejam os clichês supremos do inconsciente. Mas saber que a instrução é essa é um caminho. Caminho que não tinha. Bem, como diz o senhor h.: “um dia,chega a hora”
Eu sei senhor h. E madame l. também.